A doença do silicone é o nome dado a um conjunto de sintomas que aparecem no corpo todo em algumas mulheres com prótese mamária: cansaço que não passa, dor nas articulações e nos músculos, queda de cabelo e falhas de memória. Na literatura médica, o quadro é chamado de BII (breast implant illness). O tratamento é a retirada dos implantes, o explante mamário.
Resumo rápido
- Os sintomas são variados e não dependem de dor na mama nem de alteração na mamografia.
- Nenhum exame de sangue confirma a doença do silicone. O diagnóstico é clínico e feito por exclusão de outras causas.
- Confirmada a suspeita, a conduta é o explante. A maior parte das pacientes melhora depois da retirada, mas não todas.
Este conteúdo foi escrito pelo Dr. Fernando Freitas, cirurgião plástico (RQE 86753) com especialização pela USP e formação complementar em cirurgia mamária na mesma instituição, que atende em São Paulo pacientes com suspeita de doença do silicone.

O que é a doença do silicone
Doença do silicone, doença do implante de silicone e BII são nomes para a mesma situação: sintomas sistêmicos (que afetam o corpo inteiro, e não só a mama) em mulheres com implantes mamários, sem outra doença que os explique. O termo nasceu entre as próprias pacientes e foi incorporado aos poucos pela literatura.
A explicação mais estudada envolve o sistema imunológico. Micropartículas de silicone se desprendem lentamente do implante, mesmo sem ruptura (o chamado gel bleed), e um biofilme de bactérias pode se formar na superfície da prótese. O contato prolongado com esse material mantém o sistema imune ativado. Em pessoas com predisposição genética, essa ativação leva à produção de anticorpos contra o próprio organismo, e os sintomas começam.
Por isso a exposição prolongada pesa. Na minha experiência, o quadro é mais comum em quem convive com os implantes há muitos anos e em quem tem histórico pessoal ou familiar de doença autoimune.
Nome técnico, sigla e CID
Em inglês, o quadro se chama breast implant illness, e a sigla BII aparece na maior parte dos artigos. A FDA, agência que regula os implantes nos Estados Unidos, prefere a expressão “sintomas sistêmicos”. A doença do silicone ainda não tem um código próprio na CID. Nos registros médicos, entram os sintomas apresentados ou a complicação do implante encontrada nos exames.
Doença do silicone e síndrome ASIA: qual a diferença
A síndrome ASIA (síndrome autoimune/inflamatória induzida por adjuvantes) foi descrita por Shoenfeld e Agmon-Levin em 2011. Ela reúne quadros desencadeados por substâncias que estimulam o sistema imune, como o silicone e alguns componentes de vacinas, em pessoas predispostas. A reação ao silicone foi uma das quatro condições agrupadas na descrição original.
Na prática, muita gente usa os dois nomes como sinônimos. A diferença é que a ASIA tem critérios diagnósticos definidos, que aparecem mais abaixo neste texto, enquanto “doença do silicone” é o nome popular do quadro ligado à prótese mamária.
A doença do silicone é real? Mito ou verdade
Os sintomas são reais e estão documentados. Desde 2021, a FDA exige que as próteses mamárias tragam um alerta em destaque na bula. O texto informa que pacientes relatam sintomas sistêmicos, como dor nas articulações, dores musculares, confusão mental e fadiga crônica, e que algumas têm resolução completa dos sintomas quando os implantes são retirados sem reposição.
Estudos populacionais apontam na mesma direção. Uma análise israelense com mais de 24 mil mulheres com implantes e quase 99 mil sem implantes encontrou chance cerca de 22% maior de doenças autoimunes e reumáticas entre as que tinham prótese, com associação mais forte para síndrome de Sjögren, esclerose sistêmica e sarcoidose.
Ainda falta um exame que confirme o diagnóstico e um mecanismo que explique por que algumas mulheres adoecem e outras não. Diante de uma paciente com sintomas, porém, o caminho é o mesmo: investigar, excluir outras causas e, se a suspeita se mantém, discutir o explante.
Quais são os sintomas da doença do silicone
Os sintomas da doença do silicone são inespecíficos, ou seja, aparecem também em outras condições. Eles não precisam vir acompanhados de dor na mama nem de alteração na mamografia. Os mais relatados são:
- fadiga crônica, um cansaço que não melhora com descanso;
- dor nas articulações e dor muscular;
- névoa mental, falhas de memória e dificuldade de concentração;
- queda de cabelo;
- dor de cabeça e enxaqueca;
- boca seca e olhos secos;
- insônia ou sono que não descansa;
- ansiedade e depressão;
- alterações no funcionamento do intestino;
- manchas, coceira ou erupções na pele;
- palpitações e zumbido no ouvido;
- febre baixa que vai e volta.
Entre quase 2.500 relatos de sintomas sistêmicos enviados à FDA de novembro de 2018 a outubro de 2019, os mais citados foram fadiga (49%), névoa mental (25%), dor nas articulações (25%), ansiedade (24%), queda de cabelo (21%), depressão (19%) e erupções na pele (18%).
Esses sintomas são diferentes do desconforto das primeiras semanas depois do implante, como dor na região operada e sensibilidade nas aréolas. Esse desconforto vem da cirurgia e passa com a recuperação.
O que as pacientes relatam
Nos relatos publicados em estudos e nos grupos de pacientes nas redes sociais, um roteiro se repete. A paciente passa por vários especialistas, faz muitos exames, quase todos voltam normais, e os sintomas continuam indo e voltando. Muitas chegam à hipótese da doença do silicone por conta própria, depois de ler sobre o assunto, e procuram o cirurgião plástico já com essa pergunta.
Queda de cabelo, manchas na pele e tireoide
A queda de cabelo é uma das queixas mais lembradas e aparece em cerca de um quinto dos relatos à FDA. Manchas e erupções na pele também. As duas, porém, têm muitas outras causas: alterações da tireoide, falta de ferro, deficiência de vitaminas e mudanças hormonais, por exemplo. Ganho de peso, crises de ansiedade e episódios de pânico entram na mesma conversa. Todos esses sinais merecem investigação, mas nenhum fecha o diagnóstico sozinho.
Quanto tempo depois do implante a doença do silicone aparece
Não há um prazo fixo. Como o quadro depende de exposição prolongada ao material, a doença do silicone costuma ser descrita em mulheres com implantes há vários anos. Sintomas inespecíficos que começam poucas semanas ou meses depois de uma mamoplastia de aumento pedem, antes, a investigação de outras causas.
Quem tem mais risco de ter doença do silicone
Não existe um número confiável sobre quantas mulheres com prótese desenvolvem a doença do silicone. Os estudos tratam o quadro como pouco frequente, restrito a uma minoria das pacientes com implantes. Alguns fatores aparecem mais entre as que adoecem:
- histórico pessoal ou familiar de doença autoimune, como lúpus, artrite reumatoide, tireoidite de Hashimoto ou síndrome de Sjögren;
- alergias e sensibilidade a outros materiais;
- fibromialgia, enxaqueca crônica ou síndrome do intestino irritável já antes do implante;
- variantes de genes ligados à resposta imune, como o HLA-DRB1, identificadas em pesquisas e não em exames de rotina.
É por isso que a pergunta sobre doenças autoimunes na paciente e na família faz parte da consulta antes de um implante. Para quem tem esse histórico, a conversa sobre os riscos da prótese precisa ser mais detalhada.
Cansaço, dor nas articulações e queda de cabelo depois do silicone?
Agende uma avaliação com o Dr. Fernando Freitas na Clínica Belvitá, em São Paulo, e entenda se os seus sintomas podem ter relação com a prótese.
Como é feito o diagnóstico da doença do silicone
Não existe um exame de sangue ou de imagem que detecte a doença do silicone. O diagnóstico é clínico e de exclusão: o médico reúne a história, o exame físico e os resultados dos exames, e descarta outras doenças que expliquem os sintomas. Na investigação, costumam entrar:
- exames de sangue para tireoide, anemia, ferritina e vitaminas;
- marcadores de inflamação e autoanticorpos, como o FAN, quando há suspeita de doença autoimune;
- ultrassom ou ressonância magnética das mamas, para avaliar ruptura, líquido ao redor da prótese e o estado da cápsula;
- avaliação com reumatologista nos casos com sinais de doença autoimune definida.
Para organizar a suspeita, muitos médicos usam os critérios propostos para a síndrome ASIA. O diagnóstico pede dois critérios maiores, ou um maior e dois menores. A melhora depois da retirada do implante é, ela mesma, um critério maior, o que dá ao explante um papel no diagnóstico além do tratamento.
| Tipo | Critério |
|---|---|
| Maior | Exposição ao silicone, ou a outro adjuvante, antes do início dos sintomas |
| Maior | Sintomas típicos: dor ou fraqueza muscular, dor nas articulações, fadiga crônica, sono que não descansa, alterações neurológicas, falhas de memória, febre ou boca seca |
| Maior | Melhora dos sintomas depois da retirada do agente, no caso o implante |
| Maior | Biópsia com achados típicos no órgão afetado |
| Menor | Presença de autoanticorpos ou de anticorpos contra o adjuvante |
| Menor | Outras manifestações, como síndrome do intestino irritável |
| Menor | Genes de suscetibilidade específicos, como HLA-DRB1 e HLA-DQB1 |
| Menor | Evolução para uma doença autoimune definida, como esclerose sistêmica |
Qual médico procurar
O cirurgião plástico avalia o implante, pede os exames de imagem, indica e faz o explante. Quando há sinais de doença autoimune definida, o reumatologista entra na investigação e no acompanhamento. Em muitos casos, as duas avaliações caminham juntas.
Doença do silicone, contratura, ruptura e linfoma: como diferenciar
Parte das pacientes chega com a suspeita de doença do silicone e, na avaliação, o problema é outro: uma complicação local da prótese. A tabela resume as diferenças.
| Quadro | O que é | Sinais mais comuns | Como se investiga |
|---|---|---|---|
| Doença do silicone (BII) | Sintomas no corpo todo atribuídos ao implante | Fadiga, dores, névoa mental, queda de cabelo, boca seca | Avaliação clínica e exclusão de outras causas |
| Síndrome ASIA | Reação autoimune ou inflamatória a adjuvantes, como o silicone, em pessoas predispostas | Os mesmos sintomas, às vezes com autoanticorpos ou doença autoimune definida | Critérios de Shoenfeld e exames reumatológicos |
| Contratura capsular | Endurecimento da cápsula que envolve a prótese | Mama endurecida, dor local, mudança de formato | Exame físico, ultrassom ou ressonância |
| Ruptura do implante | Rompimento da prótese | Muitas vezes nenhum; às vezes mudança de formato ou nódulos | Ressonância magnética ou ultrassom |
| BIA-ALCL | Linfoma raro, ligado sobretudo a próteses texturizadas | Aumento tardio da mama por acúmulo de líquido (seroma) ou nódulo | Punção do líquido com análise do marcador CD30 e exames de imagem |
A contratura capsular é o que muita gente chama de rejeição, e o texto sobre sintomas de rejeição da prótese de silicone explica esse quadro em detalhe. A ruptura costuma ser silenciosa, um dos motivos para manter exames de imagem periódicos e saber se a prótese de silicone tem validade.
Quem pergunta se a doença do silicone dá câncer normalmente está pensando no BIA-ALCL. Ele é um linfoma, diferente da doença do silicone, e costuma ter bom prognóstico quando é diagnosticado cedo e tratado com a retirada do implante e da cápsula.
Tratamento da doença do silicone: o explante
O tratamento da doença do silicone é o explante mamário, a cirurgia que retira as próteses. Remédios para dor, sono ou inflamação aliviam sintomas, mas o estímulo continua no corpo enquanto o implante estiver lá. Quando a investigação aponta para a doença do silicone, a retirada é a conduta que age sobre a causa.
Os dados sobre o resultado são consistentes. Em um estudo prospectivo financiado pela fundação de pesquisa da Aesthetic Society, 88% das mulheres com sintomas atribuídos ao implante tiveram melhora ao menos parcial um ano depois do explante, com redução de fadiga, ansiedade e distúrbios do sono. Em outra série, com 248 pacientes operadas por doença do silicone, 90,4% das que responderam à avaliação relataram alta satisfação com o resultado. Melhora não é garantia: uma parte das pacientes segue com sintomas, às vezes porque eles tinham outra origem.
Explante simples ou com capsulectomia
Ao redor de qualquer implante, o corpo forma uma cápsula de tecido fibroso. No explante simples, sai só a prótese. No explante com capsulectomia, a prótese sai junto com a cápsula, de preferência numa peça única.

A decisão sobre a cápsula é tomada caso a caso. Contratura, ruptura e cápsula espessada ou calcificada pesam a favor de retirá-la. Para os sintomas da doença do silicone, o estudo da Aesthetic Society não encontrou diferença na melhora entre capsulectomia total, parcial ou sem retirada da cápsula, e a orientação conjunta da ISAPS e da Aesthetic Society, de 2023, segue a mesma linha.

O termo “explante em bloco”, comum nas redes, tecnicamente se refere à retirada com uma margem de tecido sadio ao redor, usada em casos de câncer. Na maioria das pacientes, o nome correto é explante com capsulectomia.
Como fica a mama depois do explante
Depois de anos com a prótese, é comum a mama ficar com sobra de pele e menos volume. A mastopexia retira o excesso de pele e reposiciona a mama. A lipoenxertia nas mamas usa gordura da própria paciente para devolver parte do volume. As duas podem ser feitas no mesmo tempo do explante, conforme o caso. Este blog não publica fotos de antes e depois de pacientes; o planejamento é feito na consulta, a partir da anatomia de cada mulher.
Recuperação e riscos
A recuperação depende do que é feito junto com a retirada. Em geral, a paciente usa sutiã cirúrgico, evita esforço com os braços por cerca de 15 dias e volta aos exercícios intensos entre 4 e 6 semanas. Como toda cirurgia, o explante tem riscos, como hematoma, seroma, infecção, alteração de sensibilidade e assimetria, e a indicação depende de avaliação individual.
Em quanto tempo os sintomas melhoram depois do explante
Na minha prática, os sintomas da doença do silicone costumam diminuir ou desaparecer já no primeiro mês depois do explante, e a melhora pode levar até seis meses para se completar.
Há pacientes que não melhoram com a retirada, porque nem sempre os sintomas têm relação com o silicone. Quem já tinha uma doença autoimune definida antes da cirurgia pode continuar precisando de acompanhamento com o reumatologista depois dela.
Pensando em retirar a prótese? Comece pela avaliação
Na consulta na Clínica Belvitá, em São Paulo, o Dr. Fernando Freitas revisa seus sintomas e exames e explica como seria o explante no seu caso.
Perguntas frequentes sobre a doença do silicone
A doença do silicone tem cura?
Na maioria dos casos, a retirada dos implantes leva à melhora parcial ou completa dos sintomas. Em um estudo prospectivo, 88% das pacientes tiveram ao menos melhora parcial um ano depois do explante. Parte delas segue com sintomas, em geral quando havia outra causa associada ou uma doença autoimune já estabelecida.
Qual exame detecta a doença do silicone?
Nenhum exame isolado detecta a doença do silicone. O diagnóstico é clínico e de exclusão. Os exames de sangue servem para descartar problemas de tireoide, anemia, deficiência de vitaminas e doenças autoimunes, e o ultrassom ou a ressonância das mamas avaliam ruptura, líquido e cápsula ao redor da prótese.
A doença do silicone pode matar?
A doença do silicone causa sintomas que prejudicam muito a qualidade de vida, mas não é descrita como causa de morte. O risco grave ligado às próteses é outro: o BIA-ALCL, um linfoma raro, associado principalmente a implantes texturizados, que costuma ter bom prognóstico quando diagnosticado e tratado cedo.
Qual médico procurar se eu suspeito de doença do silicone?
O primeiro passo é o cirurgião plástico, que avalia o implante, pede os exames de imagem e discute o explante. Quando há sinais de doença autoimune definida, como lúpus ou síndrome de Sjögren, o reumatologista participa da investigação e do acompanhamento, antes e depois da cirurgia.
Trocar a prótese resolve a doença do silicone?
Não. Na suspeita de doença do silicone, colocar uma prótese nova mantém o corpo em contato com o mesmo tipo de material, e a FDA descreve melhora dos sintomas com a retirada sem reposição. Quem não quer ficar com a mama vazia pode recorrer à mastopexia e à lipoenxertia no lugar de um novo implante.
Quem tem prótese e não tem sintomas precisa retirar?
Não. Sem sintomas e com o implante íntegro nos exames, não há indicação de retirar a prótese por precaução. O recomendado é manter o acompanhamento com o cirurgião plástico e os exames de imagem periódicos, e procurar avaliação se surgirem sintomas novos ou mudanças na mama.
Referências
- Shoenfeld Y, Agmon-Levin N. ‘ASIA’: autoimmune/inflammatory syndrome induced by adjuvants. J Autoimmun. 2011;36(1):4-8. DOI
- Watad A, Rosenberg V, Tiosano S, et al. Silicone breast implants and the risk of autoimmune/rheumatic disorders: a real-world analysis. Int J Epidemiol. 2018.
- Glicksman C, McGuire P, Kadin M, et al. Impact of capsulectomy type on post-explantation systemic symptom improvement: findings from the ASERF Systemic Symptoms in Women-Biospecimen Analysis Study: Part 1. Aesthet Surg J. 2022;42(7):809-819. DOI
- Glicksman C, McGuire P, Kadin M, et al. Longevity of post-explantation systemic symptom improvement and potential etiologies: findings from the ASERF Systemic Symptoms in Women-Biospecimen Analysis Study. Aesthet Surg J. 2023.
- Katsnelson JY, Spaniol JR, Buinewicz JC, Ramsey FV, Buinewicz BR. Outcomes of implant removal and capsulectomy for breast implant illness in 248 patients. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2021;9(9):e3813. PMC
- ISAPS, The Aesthetic Society, ASERF. Patient Safety Advisory: Breast Implant Removal and Capsulectomy. 2023. PDF
- U.S. Food and Drug Administration (FDA). Risks and Complications of Breast Implants. FDA
Escrito por Dr. Fernando Freitas — Cirurgião Plástico
CRM-SP 165046 | RQE 86753
Especialização em cirurgia plástica pela USP, com formação complementar em cirurgia mamária na mesma instituição
Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP)
Publicado em 02/07/2022 | Última atualização em 22/10/2026
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui consulta médica. Toda cirurgia plástica envolve riscos e a indicação depende de avaliação individual com cirurgião plástico qualificado.

